Já fui Neto Placas, hoje sou Neto da BR-020.
A história de hoje é triste. Terminou há 8 anos e já começo escrevendo com lágrimas nos olhos só de pensar no que vou relembrar durante a escrita. A história é real e aconteceu com o meu irmão Joel Mesquita Melo, natural de Taperuaba, Sobral-CE.
Ao ficar maior de idade, como era de costume nos anos 70, foi para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Durante muitos anos foi bem-sucedido no trabalho, conquistou moradia própria, muitos amigos e família, até teve um pequeno comércio.
Mas aos 40 anos, numa viagem visitando familiares aqui no Ceará, onde eu, no meu Fusca 66, fui o guia turístico dele e do meu outro irmão João, na Serra Pedra dos Ossos, no município de Itapajé-CE, durante a viagem tentei de todas as formas ser o palhaço engraçado que sempre tinha sido para ele, pois ele costumava rir de todas as bobagens que eu fazia perto dele.
Lembro de nós dois, há 40 anos atrás, correndo no calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. Depois, ele e um amigo dele me levaram para uma pizzaria, onde eu de propósito fiz muita vergonha a ele dizendo que eu gostava mesmo era de rapadura com farinha. Ele, morrendo de vergonha, mesmo assim ria das minhas bobagens.
Mas aqui nesta viagem ele se esforçava, mas não conseguia rir de nada. Foi aí que ele me confessou ter uma dor de cabeça que vinha sentindo antes de sair do Rio e que já tinha consulta marcada para quando voltasse. Aí eu, com esse meu jeitão familiar e desenrolado, pedi durante a viagem que fizesse um chá para dor de cabeça, mas não adiantou.
Terminamos o passeio e ele, ao voltar para o Rio, foi diagnosticado com doença de Parkinson. Sem ter condição para um bom acompanhamento, a doença evoluiu ao ponto de não ter mais controle com medicamento: uma hora ficava paralisado, outra hora ficava se movimentando de forma involuntária.
A partir daí, passou a se cumprir o que está escrito na Bíblia: que o rico adquire muitos amigos, mas o pobre é desprezado por todos. A maioria dos amigos se afastaram. Eu, sabendo que ele não teria força para lutar contra a doença, convidei ele para vir para a casa da minha mãe em Taperuaba, com o objetivo de lutar por condições para um acompanhamento adequado.
Mas ele, com medo de vir e nunca mais poder voltar para sua família no Rio, passou um ano chateado comigo, achando que eu tinha dado uma ideia negativa, pois não aceitou a ideia de ficar longe da mulher e dos filhos. Mas, ao sentir na pele a dor do isolamento, um ano depois pediu ao João, nosso irmão, para me avisar que estava disposto a vir.
Eu, imediatamente ao receber a notícia, anunciei a única moto usada que tinha e, antes de realizar a venda, fiz um empréstimo no caixa eletrônico do banco e viajei no dia seguinte. Minha condição era tão pequena que tive que ir de madrugada para o aeroporto de mototáxi, por não poder pagar um táxi.
O avião, por ser voo econômico, estava fazendo escalas e eu ia aproveitando para atender o celular sobre o anúncio da moto, até que consegui vender. Chegando no Rio, combinei com o João e a Eucilene para eles pagarem as outras duas passagens de volta para o Ceará.
Mas, ao tentar comprar as passagens, expliquei a gravidade da doença do passageiro e fui comunicado que só seria possível com relatório médico do paciente. Para minha angústia, eu perguntava ao Joel como era o nome do médico dele, mas ele só sabia o primeiro nome. Perguntei ao João, que sempre acompanhava ele nas consultas, mas ele também só sabia o primeiro nome.
Antes que alguém duvide de mim, faço uma observação. minha família sempre foi descuidada com a saúde. Aí tive que usar a fé e saí peregrinando pelos hospitais do centro do Rio. A única referência que eu tinha era Dr. Antônio, neurologista com deficiência no braço.
Depois de ir a vários hospitais sem êxito, por sorte, andando pelas ruas, me deparei com uma greve de médicos. Me dirigi ao responsável pela greve e perguntei se alguém conhecia o Dr. Antônio, neurologista com deficiência no braço. Graças a Deus, me falaram que ele estava atendendo bem pertinho dali.
Chegando lá, disse ao recepcionista que eu queria falar com o Dr. Antônio e expliquei a situação, mas fui ignorado e informado que não seria possível. Aí eu disse que estava com fé que ele ia me atender, mas o recepcionista me falou que fé até o satanás tinha. Eu respondi assim: pois faça só a sua obrigação, vá lá no consultório e informe ao médico que o irmão do paciente Joel Mesquita Melo veio do Ceará e quer falar com o senhor.
O médico, ao receber o recado, me atendeu, mas ignorou a situação e disse: nunca vi falar que médico autorizasse a viagem de um paciente. Saí da sala do médico inconformado e exigi falar com a diretoria daquela unidade de saúde pública. Me reuni com três pessoas da diretoria, que tentaram me convencer que o médico estava certo.
Aí eu respondi mais ou menos assim: como podem vocês serem médicos e saberem que, quando um passageiro passa mal durante um voo, o avião é obrigado a pousar e levar o passageiro ao atendimento de emergência? E como é que os médicos vão entender a situação sem um relatório médico? Certamente vão perder muito tempo. Por isso eu acho que a empresa está certa em pedir o relatório.
Aí uma diretora se levantou e disse que eu estava certo, mas precisava de alguns dias para encontrar o prontuário. Eu, com a grande experiência que tive de ter ajudado várias pessoas no Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza, respondi o seguinte: a senhora permite que eu fale direto com a chefia do arquivo? Ela disse que sim.
Eu, por conta da experiência adquirida no IJF, por tentar ajudar as pessoas, sabia que o arquivo tem um prazo de 15 dias para liberar um protocolo, mas tive sorte e foi encontrado em menos de trinta minutos. Aí voltei morrendo de alegria, falei para a diretora que já tinha sido encontrado o protocolo do meu irmão. Ela disse: muito bem, hoje é sexta-feira, na segunda você volta para pegar.
Respondi o seguinte: doutora, a norma quem cria é a diretoria, por isso faço um apelo para que a senhora mande uma pessoa da sua confiança no lugar mais próximo para eu mandar tirar cópia do relatório médico e a pessoa voltar com o documento original. Ela então concordou.
Eu, voltando muito feliz para comprar as passagens, passei de volta na recepção e disse para o recepcionista tá vendo você duvidou da minha fé e olha aí consegui em menos de uma hora
Comprei as passagens para viajar na segunda-feira. Às 5 horas da manhã, fui pegar o Joel de táxi para levá-lo ao aeroporto. Ali, percebi muita emoção da parte dele.
Chegamos ao aeroporto do Rio de onde partimos com destino a Fortaleza. Aí lembrei que, chegando em Fortaleza, eu não tinha dinheiro para pagar um táxi até Taperuaba, a 200 km de distância. Liguei para um amigo e disse: Marcelo, amigo, dá muito trabalho, mas gostaria de saber se tu pode me emprestar teu carro e ainda ir deixar lá no aeroporto de Fortaleza, pois estou no Rio partindo para Fortaleza agora. Ele disse: Tá certo, pode deixar que eu vou.
Ele, que na época era proprietário da Barraca do Marcelo, na praia da Tabuba, em Caucaia-CE, levou o carro lavado e abastecido, me entregou a chave e ficou andando de táxi naquele dia.
Deixando meu irmão em Taperuaba, na casa da minha mãe, voltei para minha casa, no Metrópole, Caucaia, onde moro até hoje. Eu, preocupado em acompanhar semanalmente o meu irmão, não tinha mais transporte, pois a única moto que tinha precisei vender para ir buscá-lo no Rio.
Pensei comigo mesmo: vou até o mercado central, onde estão meus conterrâneos bem-sucedidos, para ver se eles têm piedade e me oferecem caronas nos fins de semana, quando já costumam viajar. Mas ninguém se interessou em saber minha situação.
Decepcionado e triste, comecei a ir de ônibus e carona com estranhos, até que Deus me deu um carro bem melhor do que o Fusca que citei no começo da história. Mas logo tive que me dispor a perder o carro, se necessário fosse, pois minha esposa, Germânia Ferreira Melo, que considero uma grande pesquisadora, a quem agradeço por ter pesquisado tudo sobre a doença de Parkinson e passado dicas para eu buscar ajuda, sabendo que no posto de Taperuaba, na época, demorava até seis meses para uma consulta com neurologista, fui obrigado a procurar a Secretaria de Saúde para.
Conseguir um agendamento para uma junta médica avaliar, no HGF, a necessidade de uma intervenção cirúrgica.
Durante a avaliação por três neurologistas, eles tentaram me convencer de que, depois dos sete anos da doença, não era mais recomendada a cirurgia. Eu, sozinho, segurando a cadeira de rodas do meu irmão, tive que enfrentá-los e dizer que a junta médica, orientada pelo governo para não aprovar cirurgia de alto custo e, por verem nossas aparências de pobres, estavam dando informações erradas. Eu ainda disse o seguinte:
— Pois saibam vocês que os maiores cientistas do mundo dizem que, nos primeiros sete anos, tenta-se controlar a doença de Parkinson com medicamentos. Não conseguindo controlar, apela-se para o procedimento cirúrgico. E digo mais: se eu fosse rico, vocês estariam mandando eu pegar o primeiro avião para o Hospital Sírio-Libanês.
Aí se levantou contra mim uma médica da equipe, chamando testemunhas para me intimidar, dizendo:
— Você está nos acusando de discriminar os pobres? Saiba que já trabalhei no Sírio-Libanês.
Mas eu continuei dizendo que só falei a verdade e esperei que eles me processassem. Depois foram baixando os ânimos e logo saíram todos da sala. Mais cedo eu tinha tido informações de um médico especialista em Parkinson aqui no Ceará. Então tive a ideia de ligar para o consultório dele e marcar uma consulta com urgência, pois eu estava com meu irmão numa UTI móvel, saindo de uma junta médica que me deixou contrariado, e precisava de uma segunda opinião.
O médico atendeu, examinou meu irmão e disse:
— Você está certo. A cirurgia é indicada quando a medicação não controla mais a doença. Vá ao Hospital Federal Walter Cantídio. Lá eu solicito a cirurgia.
E assim aconteceu.
Eu, que já tinha conseguido na Justiça de Sobral medicamentos e atendimento médico, agora tinha que conseguir, através da Justiça em Fortaleza, a cirurgia que já tinha sido negada pela junta médica do Estado. No particular, custava 240 mil reais.
Foi aí que imaginei: vou perder meu carro.
Mas disse para algumas testemunhas:
— A Bíblia diz que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Provavelmente a Justiça vai negar a cirurgia na primeira instância. Vou recorrer. E, se for necessário, vendo meu carro e vou pedir ajuda aos políticos em Brasília. Pois, se eu perder o carro, ainda fico com minha mulher, meus filhos, a casa para morar e o direito de andar — coisas que meu irmão não tem mais.
Comecei a lutar em busca da cirurgia. Aí o meu amigo, delegado Braúna, me apresentou ao advogado Dr. Carlos Diógenes e pediu que ele me desse assessoria por pequenos valores, pois eu não tinha condição de pagar um advogado.
O Dr. Carlos Diógenes aceitou o desafio e, durante todo o processo, me tratou como cliente especial. Sempre que eu dava sugestões para uma nova petição, ele me ouvia com atenção e só ajustava os termos jurídicos, mas mantinha meu objetivo.
Eu tinha a senha do processo e vigiava 24 horas na esperança de boas notícias. Também visitava constantemente a primeira vara da comarca de Fortaleza pedindo agilidade.
Até que um dia tive uma ideia abençoada: levar um CD com uma pequena gravação do meu cunhado, Damião Firmino dos Santos, que é analfabeto, mas iluminado por Deus, criando soluções com orientação do próprio paciente para ajudá-lo a respirar.
Na hora de entregar o CD, a administração do fórum tentou me convencer de que o juiz jamais receberia provas em vídeo. Mas insisti muito para deixarem o CD na mesa do juiz, nem que fosse para ele jogar no lixo.
Aconteceu o milagre: o juiz, em vez de jogar fora, assistiu ao vídeo, ficou indignado e determinou imediatamente que o Estado custeasse todo o procedimento cirúrgico.
Mesmo com a decisão favorável, eu deduzi que ainda haveria muitas manobras por parte do Estado, pois eu já estava bem informado sobre o assunto. Sabia que, em Sobral e no HGF, em Fortaleza, diziam entender do procedimento, mas, na prática, não realizavam. O único médico, na época, no Ceará, que fazia essa cirurgia era particular, com ajuda de equipe de outro estado.
Enquanto em São Paulo custava cento e cinquenta mil, aqui em Fortaleza cobravam duzentos e quarenta mil reais.
Aí começou o que eu já havia previsto.
Primeiro mandaram a gente para realizar a cirurgia em Sobral. Eu imediatamente avisei ao advogado que isso era uma manobra. Ele disse:
— Eu acredito em você, mas ainda não posso fazer nada. Deixe o fato se consumar para que eu possa protestar depois.
Depois do advogado peticionar no processo avisando ao juiz que a cirurgia não aconteceu e que o Estado fez apenas uma simulação para ganhar tempo, o Estado de novo nos enganou, mandando ir para o HGF.
De novo avisei ao Dr. Carlos Diógenes que seria outra manobra. Infelizmente tivemos que ir e perder mais tempo ainda.
Isso foi suficiente para o estado planejar e entrar com um agravo de instrumento.
Eu fiquei muito preocupado, pois na primeira vara eu acreditava que o juiz era justo, corajoso e temente a Deus. Agora o processo tinha caído nas mãos de uma desembargadora com fama de ser dura em suas decisões.
Sem o advogado saber, fui sozinho ao tribunal. Chegando lá, fui atendido por uma recepcionista que foi bem clara em me dizer que era impossível falar com a desembargadora sozinho, e que, mesmo com advogado, o prazo seria de sete dias, não imediatamente como eu queria.
Mesmo assim fiz várias lamentações e pedi que passassem meu pedido a ela. Fui embora muito triste.
Viajei para Taperuaba e resolvi olhar o processo. Para minha surpresa, no mesmo dia já tinha um despacho de 18 páginas, mandando o processo voltar para a instância de origem. Fiquei muito alegre de novo.
Mas, quando o processo voltou, o juiz iluminado por Deus estava de férias, e o substituto não tinha o mesmo calor humano nem a mesma agilidade. Isso foi perfeito para o governo ganhar mais tempo.
Apavorado com a demora, convidei a TV Jangadeiro para me entrevistar sobre o assunto. Depois da entrevista ir ao ar, houve alguma movimentação, mas logo travou de novo.
Procurei outras emissoras. Na última, já desanimado, tive a sensação de que ia levar um “fora”. Lá, na sala de espera da TV, lembrei que o ex-diretor do IJF, na época da administração dele, tinha muita consideração por mim e sempre me dava oportunidades de crescer.
Liguei para ele e disse:
— Dr. Paulo Gradvohl, o senhor tem influência aqui na TV Cidade? Estou com a sensação de levar um fora quando for atendido.
Ele respondeu:
— Neto, eu não tenho influência. Quem tem é minha irmã, Elisa Gradvohl. Vamos marcar um encontro na indústria naval que eu te apresento a ela e peço para te ajudar.
Assim aconteceu.
Ela teve paciência de me ouvir durante quase uma hora. Prometeu que iria me ajudar.
E realmente, depois do apoio dela, somado ao retorno das férias do primeiro juiz responsável pela decisão, em menos de quinze dias foi depositado 240 mil reais na conta do hospital São Mateus para realizar a cirurgia do meu irmão.
Mesmo com o dinheiro na conta, os responsáveis ainda demoraram para fazer o procedimento. Eu já estava impaciente e disse:
— A Bíblia diz: “Aquele que oprime o pobre insulta aquele que o criou”.
Essa mensagem foi o suficiente para, nos dias seguintes, realizarem a cirurgia.
Depois vieram os momentos mais difíceis de todo o processo. O hospital exigiu acompanhamento 24 horas durante a internação. Eu, morando do outro lado da cidade, tive que me revezar para não deixar o paciente nem um instante sozinho.
Consegui contratar alguém de dentro do hospital para ficar das 18h às 6h, e eu ficava das 6h às 18h.
Após a cirurgia, com implante de eletrodos no cérebro e uma bateria implantada no peito para estimular os neurônios, comecei outra batalha: voltar periodicamente para a regulagem dos implantes.
Como meu irmão morava a 200 km do atendimento e só podia ir de ambulância, passei a acompanhar o processo do município de Sobral para garantir transporte, medicamentos e consultas regulares.
Mas sabemos que, mesmo com determinação judicial, as pessoas podem fazer manobras maliciosas para atrasar o atendimento.
Por isso escrevi uma carta nas redes sociais agradecendo toda a equipe da Secretaria de Saúde da época, em Sobral, reconhecendo a boa vontade de todos, inclusive do secretário Carlos Hilton e do chefe da distribuição de medicamentos.
Depois que o paciente teve melhora nos movimentos involuntários, nos travamentos, na rigidez e nas dores, comecei a observar que a equipe médica estava marcando retornos com intervalos muito longos. Reclamei e disse que a melhora ainda era pouca, mas não tive sucesso.
Então entrei com uma ação no Conselho de Medicina, que não resolveu nada. Depois entrei com uma ação na Justiça, que infelizmente caiu nas mãos de uma juíza que, de forma fria, mesmo eu tendo tentado falar com ela diversas vezes e não sendo atendido, só julgou o processo depois de dois anos.
Quando foi informado a morte do meu irmão, aí sim ela foi rápida e julgou em menos de 24 horas.
Aqui quero agradecer às dezenas de pessoas, além da nossa família, que de forma voluntária, sem receber nada em troca, ajudaram a diminuir o sofrimento meu e do Joel.
As quatro pessoas que mais se envolveram foram o Dr. Francisco José Ferreira Braúna, Dr. Egberto Teixeira Duarte, Dr. Lustosa Cabral e o Dr. Carlos Diógenes, que de forma incansável ajudou durante 11 anos, até o fim do processo.
Eu, Antônio Teixeira Melo, de alcunha Neto, escrevi com muita emoção esta triste história, oito anos depois de ter terminado.